Como saber se estou pronto para treinar para uma ultramaratona

8478574759_356ebe76af_bPOR ANA PAULA PENTEADO – Qualquer corrida com distâncias maiores do que maratona (42km) são consideradas ultramaratonas. Ou seja, o céu – ou o seu corpo – são os limites. Ao contrário do que muitos pensam, para chegar as distâncias “ultra”, não é necessário primeiro ter completado provas de 5km, 10km, 21km e 42km com ritmo de queniano… Mas como tudo começa com o primeiro quilômetro, mesmo não tendo completado nenhum prova oficial antes, para encarar uma ultramaratona você precisará já ter feito essas distâncias confortavelmente (e inúmeras vezes).

Ultramaratonas podem ser consideradas um esporte diferente de corridas de rua – além da distância, outro ponto de distinção é que normalmente são em trilhas. O treinamento deve ser variado – não basta acumular muitos quilômetros, pois isso facilmente provocaria lesões. É necessário treinar força e tipos diferentes de corrida (variando velocidade, terreno e altimetria). Por isso ultramaratonas requerem um tipo “especial” de pessoa – que ama corridas e desafios, mas que pouco se importa com certos fatores que são essenciais para muitos corredores de rua.

“Pace” (ou ritmo) por exemplo – o tempo que levamos para correr 1km. Isso é bem fácil de determinar para a maioria dos corredores e varia de acordo com a distância (por exemplo, corredores sabem seu pace para 10km ou para 42km). Já se essa pergunta for feita a um ultramaratonista, a resposta não é simples. Primeiro, como a distância total percorrida é grande, o ritmo da corrida deve ser planejado para não se desgastar demais no começo e ficar sem energia para o final. A distância total da ultramaratona provavelmente só será feita no dia da mesma (não se faz um treino de 100km para correr uma prova de 100km). Por isso o treinamento funciona como um quebra-cabeças, onde se treinam vários aspectos da corrida separadamente, e apenas no dia da prova saberemos se tudo funcionará junto.

Outros fatores que interferem no pace de um ultramaratonista:

• Terreno da corrida – asfalto, trilhas (pedras, escadas, rios e outros obstáculos), areia, neve;
• Altimetria – subir/descer montanhas ou plano;
• Altitude: algumas ultramaratonas tem grande variação de altitude;
• Período do dia – ultramaratonas frequentemente continuam depois do por-do-sol e mesmo com lanternas, há menor visibilidade a noite;
• Clima – por cobrir áreas/período de tempo grandes, pode haver muita variação em condições climáticas;
• Apoio – pelo suporte ser em pontos distantes, normalmente deve-se carregar suprimentos/equipamento de segurança em uma mochila.

Pode também haver a combinação de um (ou mais) dos fatores acima. Com tantas variáveis, deve-se “ouvir o próprio corpo”. O treino não tem uma regra e é delicado, não vai ser limitado por uma planilha, mas sim pela maneira como o corpo responde – muitas vezes é a dor que dita seus limites (e várias vezes você terá que desafiá-la). A progressão acontece de acordo com o condicionamento obtido ao longo de sua vida. Não basta ser um bom corredor, ultramaratonas testarão o condicionamento geral. Por isso que chegar a linha de partida de uma ultramaratona já é uma grande vitória – significa “sobreviver” ao treinamento.

Treino demais pode causar lesões, e pouco pode não ser suficiente para completar a prova. Chegar ao final em uma ultramaratona é uma grande conquista onde todos são vencedores – até os mais lentos merecem glória, pois podem ter ficado expostos a natureza o dobro (ou mais) de tempo do que os corredores mais rápidos, requerendo uma resistência física maior. Nota-se que em ultramaratonas os corredores são mais amigos, ajudam uns aos outros e a competição maior é com você mesmo.

Entretanto, apesar do treinamento físico ser intenso (e requerer descanso e nutrição apropriados), a preparação mais crucial é a mental. Em um estado de fadiga (que acontecerá em algum ponto da corrida), nosso cérebro pode facilmente nos convencer de que devemos parar. Conseguir distinguir entre o que é normal sentir ou se devemos parar será difícil, mas isso é o que mais nos faz sentir a grandiosidade do desafio que aceitamos e o quanto uma corrida pode mudar nossa vida apenas por ajudar a nos conhecermos melhor. É isso que faz ultramaratonas serem tão especiais. Com o tempo, aprendemos como nosso corpo funciona, entendemos nossos limites – e só assim conseguimos superá-los. Por isso os pré-requisitos mais importantes para correr uma ultramaratona são persistência e determinação – todo o resto pode ser treinado.

One Response
  1. Roger Frias 1 ano ago

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *