Na Batida da Motivação, ou Desmotivação

headphones-925886_1280POR LUCIANE CASANOVA

Vamos admitir: é impossível acordar todo dia na euforia de que faremos um treino sensacional, no maior estilo dedinho pra cima e “uhuuuu”. Não é assim que a banda toca, muito embora eu gostaria, do fundo do meu ser, que fosse desta forma.

Fato é que, muitas vezes, as preocupações e o estresse do cotidiano nos derrubam um verdadeiro balde de água fria e é justamente nesta hora que precisamos de uma motivação extra, nem que seja apenas para os primeiros quilômetros, ou os últimos… tá, sejamos verdadeiros, para o percurso todo. E que tal pensar em música? Dizem que quem canta seus males espanta. Acredito. E quem corre ouvindo música, será que tem mais motivação? Sim e não.

É inegável que uma boa playlist te coloca pra cima. Impossível não se imaginar Rocky Balboa ouvindo Eye of Tiger ou, ainda, não dar um gás final ao som de Chop Suey do System of Down. Até porque, a música reduz a sensação de esforço físico em até 10% e dá aquela impressão de que você está correndo mais rápido e se cansando bem menos. Podemos observar melhor os efeitos da música quando corremos, em treinos executados na esteira. A música aparece com um poder espetacular contra o tédio do que chamo de “treino hamster”. Ninguém merece ficar correndo e correndo olhando para o nada, não é mesmo?

Para os iniciantes, a música é uma ótima pedida, já que ainda não estão tão preocupados com postura, tempos, desempenhos e seus objetivos são resumidamente o de progredir na distância e cruzar a linha de chegada.

Porém, como tudo na vida tem seus prós e contras, a música também pode aparecer como um fator desmotivante. Tá doida? Pois é. Verdade.

O que muitos não sabem, é que a música assim como qualquer outro estímulo pode nos tornar dependentes e o que teria um papel motivador, passa a jogar contra você.

E foi justamente o que aconteceu comigo. Há muitos anos atrás, quando eu optava por provas e treinos longos, corria com os fones no ouvido. Todo santo dia. Certa vez, durante uma prova de 25km pela areia, no km 17, o mp3 simplesmente parou, pifou, faleceu. Não precisei de 2km para ver bolinhas pretas na frente, sentir náuseas e ter que caminhar totalmente destruída, enquanto a 5ª colocada passava por mim e me esperaria no pódio com um sorrisão no rosto segurando um troféu que seria meu. Seria, não fosse ter depositado todas as minhas forças no raio do mp3. Apesar de estar sem os fones, consegui ouvir claramente o som da marcha fúnebre enquanto eu voltava para a casa.

Depois de toda a frustração de ter treinado e morrido literalmente na praia por conta da falta de música, deixei de lado os fones e passei a me concentrar mais em minhas passadas, minha postura, minha respiração (cantando durante a corrida, muitas vezes de forma involuntária, você pode prejudicar a respiração e, por conseqüência, prejudicar sua performance), e passei a trabalhar mais a mente, conversar comigo mesma, desafiar mais o psicológico do que propriamente o físico – que é justamente o que a música faz – desafia o físico. E o que ganhei com isso? Sem dúvida nenhuma melhores resultados nas provas e uma força mental gigantesca, o que na minha opinião pode decidir uma prova ou treino de forma mais eficaz do que o danado do mp3.

Porém, em abril deste ano, num destes dias em que você precisa se desligar do mundo, saí de casa para treinar com os tais fones, e ao me distrair e atravessar a avenida sem prestar atenção no sinaleiro, fui atingida por um carro a 60km/h. Voei no maior estilo dublê de filme policial, estourei o vidro do carro, dei dois loops pra cima, bati com os dois lados da cabeça no chão. Cheguei a ouvir: “Ela morreu”. Agradeci por minha mãe ter razão. Sou mesmo uma cabeça dura. Bati as mãos no short e levantei, meio zuretinha. Saí com dois galos na cabeça e escoriações leves nos joelhos e cotovelo. Anjos corredores deveriam estar a postos. No hospital, os médicos me disseram que eu poderia ter tido a bacia partida ao meio. Foi sorte. Foi Deus. Foi a música nos ouvidos. E pensar que poderia encerrar minhas passadas definitivamente ao som de Skid Row….

Confesso que há dias em que ainda corro com música, mas são raros. Rock n` run, sabe como é…Porém, que tal alterar dias com e dias sem música, até porque melhor do que se motivar com uma banda, é motivar-se consigo mesmo! Bora tentar?

#correrbemparacorrersempre.

One Response
  1. DEIDE 2 anos ago

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