São Silvestre: a tradição que nos faz correr atrás de nossos objetivos – literalmente – Por Flora Finamor Pfeifer

A 100ª edição da corrida de São Silvestre reúne 55 mil corredores de todo o país para um último desafio antes do fim do ano.

POR FLORA FINAMOR PFEIFER –  Na maior parte do mundo, o Ano Novo traz consigo uma onda de motivação e promessas de novas metas. De fato, esse fenômeno é documentado na literatura das ciências comportamentais, sob o nome de efeito novo começo (fresh start effect). Segundo Dai, Milkman e Riis (2014), marcos temporais geram um impulso psicológico de motivação, permitindo-nos separar o “eu” do passado de novos “eus” e, assim, aumentar a probabilidade de mudança de comportamentos.

No Brasil, porém, existe uma última chance de cumprir seus objetivos antes do fim do ano: a corrida de São Silvestre acontece na manhã do dia 31 de dezembro e atrai pessoas de todo o país, e até alguns participantes internacionais, para um desafio final antes da virada. O evento leva cerca de 50 mil corredores todos os anos às ruas de São Paulo, em um percurso de 15 km no auge do verão brasileiro.

A prova, no entanto, é diferente de outros eventos esportivos: é uma tradição nacional, assim como uma promessa de mudança. E, do jeitinho mais brasileiro possível, por que deixar nossas aspirações para o começo do ano, se podemos resolvê-las no último minuto?

Corredores de longa data podem disputá-la simplesmente pelo prazer de correr, mas os não corredores são uma parte enorme desse evento, tirando o esporte da sua própria bolha e trazendo-o para a vida daqueles que não o praticam. É o momento do ano em que a corrida ocupa o centro da sociedade, aparece na mídia nacional e se torna o assunto do momento. A São Silvestre se apresenta como um símbolo, tanto quanto uma oportunidade, de esperança, mudança e realização de objetivos de longo prazo.

As pessoas correm para celebrar a cura de um câncer, para superar um vício, como meta de perda de peso ou para comemorar uma promoção no trabalho. A corrida se torna, ao mesmo tempo, instrumento e oportunidade para a mudança que cada um precisa. Ela passa a representar um componente muito brasileiro: a fé.

Para além da prova em si, o processo de preparação e a conclusão do desafio acabam gerando benefícios poderosos para outras áreas da vida. Afinal, se sou capaz de correr 15 km no insuportável verão brasileiro, do que não sou capaz? A corrida fortalece a autoeficácia, desenvolve uma mentalidade de crescimento e demonstra, de forma concreta, o valor de perseguir objetivos de longo prazo.

Tudo começou em 1925, quando o jornalista Cásper Líbero se inspirou em uma corrida noturna realizada na França, na qual os participantes carregavam tochas de fogo. Batizada com o nome de um santo, a primeira edição contou com 48 participantes e aconteceu à noite, pouco antes da virada do ano.

Em 1945, a corrida passou a ser transmitida pelo rádio e ganhou projeção nacional. Já em 1948, o evento era tão popular em todo o país que foi necessário realizar provas classificatórias para selecionar os participantes. Ao longo das décadas, campeões olímpicos como o tcheco Emil Zatopek e o russo Vladimir Kutz participaram da prova.

A corrida também refletiu transformações sociais, como a inclusão de povos indígenas em 1964 e 1982, e das mulheres, em 1975. Foi em 1991 que o percurso passou a ter 15 km e a prova tornou-se oficialmente reconhecida pela IAAF, a federação internacional de atletismo. Em 1995, o atleta queniano Paul Tergat, então recordista mundial da maratona, venceu a competição. Desde então, corredores africanos passaram a figurar constantemente no pódio, com representantes do Quênia, Etiópia, Uganda e Tanzânia vencendo a prova com frequência. Atletas latino-americanos, da Bolívia, Equador, México e Colômbia, também marcam presença recorrente. E, claro, a corrida é um espaço de formação e revelação do atletismo brasileiro, com campeões nacionais como Marílson Gomes dos Santos e José João da Silva. Em 2025, aconteceu a 100ª edição da prova, a maior até hoje, com 55 mil participantes inscritos.

À medida que o Ano Novo se aproxima, somos inundados por técnicas para dominar o planejamento das metas e promessas do recomeço. Como cientista comportamental, não faltam os guias de boas práticas da área – dividir objetivos em etapas menores; definir métricas mensuráveis; focar no que está sob nosso controle; unir uma meta a um processo de hábitos dentro de uma rotina, e assim por diante. Agendas, gadgets, aplicativos e outras ferramentas individuais de autoaperfeiçoamento ganham popularidade.

Mas, no último dia 31, ao me juntar à multidão na linha de largada da corrida, com o coração batendo em um grande ritmo sincronizado ao daqueles ao meu redor, não conseguia parar de pensar em como é incrível existir um evento inteiro dedicado à perseguição de nossos objetivos. Fazer isso não no espaço protegido do meu quarto, nem no território abstrato do futuro, mas com tantos outros, de uma forma concreta e materializada no espaço. Vamos às ruas. Aprendemos com o corpo. Celebramos juntos. Seja qual for o nosso objetivo pessoal, compartilhamos uma fé comum em um dos valores mais presentes do Brasil: a esperança. Desta vez, a motivação não nasce de um marco temporal, mas de uma linha de largada bem real e compartilhada.

Flora Finamor Pfeifer é corredora de pista, trilhas e e rua, no esporte há mais de dez anos.  Escreve sobre cultura, ciência e comportamento. Cientista comportamental, economista (USP), Mestre em Administração e governo (FGV) e Diretora Presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Comportamentais (IBCC). É co-autora do livro A Cabeça do Corredor, em que traz o campo das ciências comportamentais para o universo da corrida, e da newsletter A Moving Mind.

@florafinamor

https://movimente.substack.com

 

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