O brasileiro que fez história no mundial de Ironman

A estreia do triatleta profissional Thiago Vinhal no mundial de Ironman do Havaí, em Kona, superou todas as expectativas. Não bastasse o mineiro de 33 anos ter feito história no mundial como o primeiro negro a competir na categoria profissional, Vinhal cravou seu nome na história duplamente, tendo completado a prova em tempo recorde entre todos os atletas brasileiros que já competiram na história do mundial – os 3,8 Km de natação, 180 Km de ciclismo e 42 Km de corrida foram percorridos em 8h27min24, tendo sido o 13º colocado já em sua estreia no mundial.

À primeira vista, os menos informados podem subestimar o tempo ou a colocação, a análise mais cuidadosa, porém, traz ao resultado do minero Thiago Vinhal nuances de heroísmo – o mundial é disputado por atletas de países que valorizam extremamente o triathlon por uma questão cultural. O novo marco o reclassifica frente a outros atletas brasileiros muito mais experientes, que já competiram em outras edições do mundial. A participação do atleta no mundial rendeu um documentário, que está em produção. O teaser do documentário pode ser conferido neste link: https://goo.gl/9YgwtH

Confira entrevista concedida à redação da Go Running:

Qual foi a diferença entre a rotina de preparação para o mundial, na comparação com as demais competições de que você já participou?

A preparação para Kona foi uma evolução do nível de performance que venho preparando para as outras. É praticamente a mesma preparação, porém, com foco no ponto que preciso melhorar agora. Em geral, a modalidade em que preciso evoluir mais é o ciclismo. Para Kona, me preparei bastante, tanto para o ciclismo, quanto para a natação. Também fiz acompanhamento psiquiátrico para ampliar o estado de concentração e flow mais alinhados para o dia da prova. Sei que aqui estão os melhores do mundo, então, estará difícil durante toda a prova, estão todos no auge de sua forma. Foi preciso treinar o melhor que eu podia, com todo o acompanhamento de fisioterapia, nutrição, chegando ao peso ideal, quanto com a preparação mental para encarar um desafio tão grandioso.

Por que o campeonato mundial de Ironman sempre foi o maior desafio da sua carreira?

Sempre gostei de desafios, e o maior desafio que eu poderia alcançar até esta fase da minha carreira foi competir em Kona, com os melhores do mundo. Esse sempre foi o sonho da minha carreira porque eu já queria chegar alto, não queria ser apenas campeão mineiro, ou brasileiro, queria estar aqui entre os melhores do mundo. Foi isso que almejei, foi isso que mirei, e acho que qualquer atleta de performance do triathlon do mundo sonha um dia competir aqui em Kona. É um evento mágico, e é um feito mágico também.

Qual foi seu maior desafio até alcançar esse objetivo?

O mais desafiador da minha trajetória até aqui foi a superação da rotina no dia a dia do Brasil, os treinamentos, ter que me virar para trabalhar, pagar conta, estudar, viajar, competir, resolver problemas e, mesmo assim, continuar sonhando em competir com os melhores triatletas profissionais do mundo, que em geral, têm a liberdade de se dedicar exclusivamente à rotina de treinar, comer e descansar, que é uma das importantes etapas do treinamento também, com grandes patrocinadores, em países que apoiam o triathlon. Então, isso foi um dos pontos que mais marcou a trajetória, o mais desafiador foi isso.

Você enxerga relação entre o triathlon e os desafios da vida?

Acho que o triathlon imita a vida totalmente, porque cada dia é uma dificuldade, cada dia é um desafio, e quando você tem que viver de performance, ter uma performance física, isso já uma dificuldade a cada dia, pois a tendência do corpo humano é querer ficar na zona de conforto o tempo inteiro, tanto mental, quanto fisicamente. E para ser um triatleta, competir em alto nível, você precisa se desafiar todo os dias. Todos os dias são de desafios e superação. Assim como na vida, almejamos alcançar sonhos como sucesso, casa, carro, precisamos de buscar trabalhar, conseguir as alternativas para avançar em direção ao que almejamos, e, no triathlon, é a mesma coisa. Quer ser campeão, tem que ter atitude de campeão.

 Que lições leva do triathlon para a vida?

A principal lição que levo do triathlon para a vida é que, quando a gente sonha, e tem um desejo vivo dentro de nós, damos um jeito de conseguir. Meu maior aprendizado foi que devemos sonhar alto mesmo, às vezes nem eu acreditava que poderia aonde cheguei, e hoje estou entre os melhores atletas de triathlon long distance do mundo.

De onde buscar motivação quando as adversidades ou a própria cabeça começa a nos boicotar?

A motivação estão ligadas a uma coisa só: o sonho ardente, claro em sua cabeça. Devemos ter muito claro aonde queremos chegar. Não pode ser só: quero ter uma casa. E sim, quero ter uma casa de tantos quartos, de tal cor, em tal bairro, valendo tantos reais, essa é a diferença. Quando o sonho está claro na sua cabeça, ele te acorda de manhã, não é o despertador, ele que nos chama para sofrer um pouco mais quando precisar, ele que faz a gente trabalhar mais na hora que precisa, e mesmo se o chefe estiver enchendo o saco, estiver um momento ruim, brigando em casa com a família, a imagem, lá na frente, de onde você quer chegar, você se sentir realizando aquilo ali, já faz valer a pena o momento que você está passando, independente de ser bom ou ruim, é um momento que te deixa mais próximo daquilo que você está sonhando.

O que você diria aos jovens brasileiros que passam por tantas dificuldades no dia a dia?

A principal mensagem seria que eles devem se preparar para o mundo. Hoje em dia, o mundo está todo conectado, não é só saber mexer na internet, facebook, instagram, é estar preparado realmente para esse turbilhão de informações, de tantos estímulos. É preciso falar o máximo de línguas que se puderem, e realmente escolher a direção para onde querem ir, e se aprofundarem o máximo possível naquilo ali. Acho que é preciso sonhar alto, tentarem se conectar com eles mesmos, tentar se responder o que gostam de verdade, não se deixar influenciar pelo contexto, e sonharem grande mesmo, correndo atrás disso, porque quem quer, e quem busca, consegue.

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