POR FLORA PFEIFER – Uma das coisas que a corrida é mais capaz de ensinar é a construção de hábitos e rotinas consistentes no médio e longo prazo para atingir objetivos. O raciocínio de estipular uma meta, construir um plano e executá-lo passa a ser natural depois de anos neste esporte – seja nele ou em outras áreas. Essa capacidade não vem de uma superioridade de caráter, mas do desenvolvimento de habilidades para se lidar com o próprio funcionamento. Para um processo exitoso de treinos, o atleta desenvolve (muitas vezes, por tentativas e erros nas sucessivas temporadas) o aprendizado de como lidar com pequenas intempéries da sua rotina: o que ajuda para levantar da cama e o que o faz ficar no snooze indefinidamente, o tipo de pensamento que ajuda a sair de casa ou aqueles que justificam o dia no sofá e os pequenos truques que facilitam a vida (e aquilo que atrapalha).
Muito desse conhecimento pode ser acelerado ou facilitado ao se estudar as ciências comportamentais. A área bebe da psicologia, da economia comportamental, da neurociências e de demais ciências humanas e cognitivas para entender o que determina escolhas, ações e padrões de comportamento – e como influenciá-los. Há um ano, lancei um livro, em co-autoria com o Danilo Balu, sobre a aplicação dessa área do conhecimento na corrida, A Cabeça do Corredor.
Passado um ano do lançamento, retomo o tema em momento oportuno com foco na primeira parte do livro, que explora como estruturar uma rotina de treinos. A parte do treinamento, obviamente, deixo a cargo dos treinadores, mas todo corredor mais experiente já percebeu que a atividade em si é só uma parte deste universo: conseguir entrar no ritmo e encaixar estes momentos é um desafio por si só – para além da musculação, fisioterapia, alimentação, sono e pequenos hábitos preventivos e de recuperação que complexificam ainda mais uma rotina dedicada ao esporte.
Sempre lembro – e, nessas, me lembro – que o começar (ou o recomeçar) é muito mais difícil do que o momento da performance em que você já está na crista da onda. Além da dificuldade pra retomar o condicionamento de outrora, restabelecer a automaticidade da rotina é o lapso entre a percepção de esforço para fluidez. Pra você que iniciou o ano jurando (!) que depois do carnaval as coisas vão engatar – ou de quem teve uma boa quebra com o feriado e está penando para voltar, lembre-se de facilitar o caminho pra você mesmo do futuro até que essa constância seja recuperada.
Separei oito sugestões que podem ajudar neste momento (com o nome técnico de cada ferramenta):
- Definir de antemão um local e momento do dia para os treinos (incluindo o fortalecimento) → planejamento;
- Mapear as coisas que te atrapalham nesse plano e desenvolver planos “se… então” sobre como superá-los → intenção de implementação;
- Colocar na agenda de trabalho os momento de treino → comprometimento prévio;
- Chamar um parceiro (ou ter um grupo) para treinar junto (ou dar satisfações à distância) → comprometimento social;
- Anotar o treino feito em um local, monitorando o progresso → automonitoramento;
- Colocar a roupa de treino logo ao acordar ou ao chegar do trabalho, pra já facilitar o caminho até la → remover fricções;
- Trazer coisas prazerosas pra você no momento do treino, associando uma coisa a outra – por exemplo, fazer pequenas aventuras em novas rotas ao final de semana ou combinar com amigos diferentes → temptation bundling
- Pequenas recompensas após o treino, reforçando positivamente o comportamento (i.e. uma água de coco geladinha depois daquele treino desgastante) → reforço positivo
Vale lembrar que as barreiras e soluções são sempre algo muito particular, então o “como” implementar a técnica de uma forma que faça sentido para você pode ser der um jeito diferente. Tem alguma ferramenta que te ajudou em situação similar? Comente aqui e bons treinos!

