A lembrança da minha primeira medalha!

POR JOSÉ VIRGINIO DE MORAIS – Pronto, cheguei!
Recordo-me das roupas que minha mãe me vestia para ir à escola, do pai sempre esperando no portão com olhos no relógio para não ter atrasos, recordo-me de quando achava que já era independente, da namorada que mal sabia que eu não tinha nem o dinheiro do ônibus para passear.

Eu, a patroa e as crianças
Eu, a patroa e as crianças

Lembro-me também das minhas primeiras corridas de rua, entre elas a Maratona de Ribeirão Pires (SP) com seus 42.195 metros, quando fiz o seguinte cálculo: 10km+10km+10km+10km = uma maratona. Doeu muito, mas cheguei.

Recordo-me também do professor Jair Rossetti (SESI – Osasco), o cara que me fez acreditar que eu poderia ser um universitário. Jamais esquecerei como aprendi e de como valorizar todo o processo de evolução humana até aos dias de hoje.

Recordo-me do nascimento de meus filhos (registrados), o número 1, Bruno, que chorava dia e noite com cólica, da número 2, Pietra, que desde pequena queria dar nós em pingo d’água, e da número 3, Sofia, que não deixa eu mandar na geladeira e nem nas decisões dentro de casa. Recordo-me de como minha esposa, Ingrid, entrou em minha vida, de como vivemos a mesma emoção todos os dias, de como nos completamos em cada conquista ou em cada discussão.  Recordo-me de cada mão, abraço, afago, amigo, letra, voz que ecoou das mais diversas formas para me confortar ou indicar o melhor caminho.

Recordo-me de cada medalha, corrida, quilômetros, lesão, derrota, vitória que a vida me mostrou, seja correndo ou explorando as capacidades do meu corpo. Recordo-me dos momentos, sementes e razões que me tornaram o que sou hoje como pessoa, pai, filho, amigo ou simplesmente alguém na vida de alguém. Recordo-me muita coisa, mesmo não tendo nascido há 10 mil anos atrás. Recordo-me de agradecer a Deus todos os dias por me dar saúde, proteção, energia e muita alegria nas pernas para continuar explorando.

Eu e o professor Jair Rossetti, meu grande incentivador.
Eu e o professor Jair Rossetti, meu grande incentivador.

Recordo-me também que já se passaram 40 anos de vida, 23 anos de atletismo, 10 anos de corrida por montanhas e mais alguns outros anos por alguma coisa mais.

Recordo-me de minha primeira medalha.

Recordo-me do meu primeiro dia de aula na escola Nossa Senhora dos Remédios (Osasco/SP – Brasil), quando todos os alunos estavam posicionados em filas na quadra da escola ouvindo as boas vindas da Diretora Eizabeth e do seu vice, Carlos. Na sequência foi tocado o Hino Nacional e eu, com 7 anos de idade, nunca tinha ouvido algo tão tocante e cantado a uma só voz. Lembro-me de ouvir a professora dizer que faríamos este ato, de cantar o Hino, todas as quartas-feiras da semana antes das aulas.

Um certo dia não tivemos o Hino Nacional e, ao questionar a professora, ela disse: “hoje é quinta-feira, não tem Hino”. Como criança pentelha que eu era, perguntei a mesma coisa de novo e de novo para a professora e sempre obtinha a mesma resposta: “hoje é quinta-feira, não tem hino”.
Porém, como eu gostava muito de escutar a nossa composição musical patriótica, ela me disse: “trate de estudar muito e ser bem disciplinado e eu te coloco no time de futsal da classe. Assim, caso o time se torne campeão, no dia das premiações e entrega das medalhas, o Hino Nacional tocará para todo mundo ouvir e cantar junto”.

Já era difícil ficar na fila de entrada da escola sem ficar correndo, ficar sentado por mais de 30 minutos na carteira era ainda mais complicado. Entregar as lições em dia “Ave Maria” era quase um momento mágico, então pensei que precisaria ser diferente para estar naquele momento único de ouvir o Hino.

O plano era conseguir me destacar e ser diferente nas aulas de Educação Física, em que o professor Darlam tinha uma certa influência para ajudar a professora na escolha nos alunos para o campeonato. Ufaaaaaaaaaaa, assim entrei para o time. Ao final do campeonato, a sala foi a campeã, o dia esperado chegou e foi tudo aquilo que eu imaginava: o som ecoando pela escola toda, todos olhando, cantando e a certeza de que valeu cada dia e cada mudança para estar lá naquele posto.

Os filhos não registrados
Os filhos não registrados

Evento: Campeonato entre salas do Colégio Nossa Senhora dos Remédios de 1986.
Turma: 1ª série F – 7 anos de idade.
Modalidade: Futsal
Classificação: Classe campeã

Vale lembrar que era uma quarta-feira no momento da entrada das classes, em que as salas campeãs das primeiras, segundas, terceiras, quartas e quintas séries se posicionaram todas juntas e ouvimos o Hino de frente umas para as outras. Isso se repetiu por mais três anos na mesma escola e na mesma modalidade, até outros esportes passarem a fazer parte do meu gosto esportivo. Entraram na lista o futebol de campo, futebol de mesa, handebol, voleibol, atletismo, corrida de pista e rua, mas foi no trail run que busquei e encontrei esse momento novamente. Sim, eu me recordo de como tive que ser diferente para ouvir o Hino do mesmo jeito, forma e emoção que foi há 33 anos.

Mas isso é assunto para uma próxima história

Foi assim a minha primeira medalha. Não tinha peso, cor, vaidade, valor financeiro, mas eu queria somente ter o prazer de ouvir o nosso Hino Nacional.

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