POR PRISCILA MARTINS ORTIZ – Dia 31 de janeiro de 2025, 9h30 da manhã. Não foi apenas uma corrida. Foi uma travessia através de um século inteiro. Corpo, mente e coração em movimento. A minha primeira São Silvestre coincidiu com os 100 anos da prova, e eu gosto de pensar que não foi coincidência. Foi destino, desses encontros que a vida marca e a gente só entende depois que vive.
Eu cresci ouvindo histórias sobre essa corrida, vendo rostos exaustos e felizes cruzando a Paulista, lendo sobre gente que treinou meses, anos, a vida inteira, para estar ali. Mas nada me preparou para sentir o que é estar naquele asfalto, com o som dos passos ecoando entre os prédios, a cidade vibrando e o cheiro de emoção misturado ao de suor e isotônico.
Quando larguei, não o fiz sozinha. Larguei junto com todos os que vieram antes, e com cada história que o corpo humano já escreveu ao longo de cem edições. Cada quilômetro parecia ter uma voz. De atletas, amadores, sonhadores, pessoas que correram por amor, por superação, por promessas feitas a si mesmas. O asfalto, ali, era memória viva.
Mas além da emoção, houve também ciência, sempre ela, o braço amigo da performance esportiva. Dias antes, ajustei minha carga de carboidratos, prática essencial para garantir energia duradoura durante provas longas. Já a hidratação começou bem antes da largada: água, eletrólitos e atenção plena aos sinais do corpo. Durante a corrida, pequenos goles e a estratégia certa de reposição me mantiveram firme mesmo nas subidas da Brigadeiro, quando o coração disparava e a musculatura começava a pedir pausa. Foi ali que a nutrição esportiva encontrou sua função mais bonita: permitir que a emoção fluísse sem que o corpo travasse.
E foi entre o som ensurdecedor dos 55 mil corredores e a serenidade que habitava meu peito que percebi: eu não estava apenas participando de uma corrida centenária. Eu estava ocupando um espaço sonhado por milhares de pessoas e compreendendo, na prática, o que sempre ensino. Que o corpo é instrumento, e o combustível certo faz toda diferença. E eu estava entrando, oficialmente, para uma história que começou muito antes de mim e que agora também me pertence.
Sim, houve fadiga. O glicogênio reserva não é infinito, e em determinado momento senti o peso das pernas. Mas a alma empurrou, e o coração lembrou o propósito. Teve subida que eu xinguei, descida em que sorri sozinha e lágrima que veio sem pedir licença. Correr 15 km em meio ao sol, calor e à multidão é um teste físico, mas também emocional. Entender que eu fazia parte da São Silvestre dos 100 anos foi grande demais para caber só no peito.
Quando cruzei a linha de chegada, tudo desacelerou por um instante. As pernas tremiam, o relógio pouco importava. Havia endorfina, alegria química e real, e uma certeza deliciosa: eu pertenço a essa história. Minha primeira São Silvestre foi também meu centenário pessoal de aprendizado. E a lição continua a mesma, dentro e fora da nutrição, da performance e do treino: o corpo aguenta mais quando o coração sabe por que está ali.
Que venham outras provas, outras largadas, outras histórias. Mas essa de 31 de dezembro de 2025 fica para sempre. Porque correr 100 anos de história em 15 quilômetros não é apenas sobre performance. É sobre existir com intensidade. E eu existi inteira ali, nutrida de emoção, energia e gratidão. Obrigada São Silvestre e Feliz 2026.
QUEM SOU
* Meu nome é Priscila Martins Ortiz, sou Fisioterapeuta e Nutricionista, especializada em bodybuilding coach e saúde da mulher, além de criadora de conteúdo fitness com foco em treinamento, corrida e nutrição.

