POR DR. ANA PAULA SIMÕES – Se você já sentiu aquela dor surda na base do calcanhar dor surda na base do calcanhar dor surda na base do calcanhar ou
aquela queimação logo acima dele nas primeiras passadas da manhã, sabe exatamente do que estou falando. A tendinopatia
do Aquiles é uma das lesões mais prevalentes no universo da corrida, responsável por até 11% de todas as lesões em
corredores recreacionais corredores recreacionais corredores recreacionais e por noites de insônia, planilhas cortadas e frustrações que nenhuma medalha compensa. Mas a boa notícia é que a ciência nunca esteve tão avançada no tratamento e na prevenção dessa condição.
Fato Rápido
A tendinopatia não é só inflamação — é degeneração do colágeno. Por isso antiinflamatórios isolados raramente resolvem o problema.
Aquiles, o ponto de pressão da corrida Aquiles, o ponto de pressão da corrida Aquiles, o ponto de pressão da corrida
O tendão de Aquiles é o maior e mais forte tendão do corpo humano. Liga os músculos da panturrilha (gastrocnêmio e sóleo) ao osso do
calcanhar, o calcâneo. A cada passada, ele absorve forças que chegam a 8 vezes o seu peso corporal. Em uma corrida de 10 km, estamos
falando de milhares de ciclos de carga. Quando a demanda supera a capacidade adaptativa do tecido, o tendão começa a se deteriorar.
E aqui mora o primeiro grande equívoco: durante anos chamamos essa condição de “tendinite” como se houvesse inflamação aguda no local. A
medicina esportiva moderna, baseada em evidências sólidas dos últimos 15 anos, já sabe que o nome correto é tendinopatia, que descreve uma degeneração da matriz de colágeno, com desorientação das fibras e neovascularização patológica. Isso muda tudo na abordagem terapêutica.
“Você não trata tendão degenerado com repouso total. Você trata com carga progressiva, feita da maneira certa, na hora certa.” — DRA. ANA PAULA SIMÕES · MEDICINA DO ESPORTE
Os dois tipos que você precisa conhecer
Antes de falar de tratamento, preciso esclarecer um ponto fundamental: nem toda dor no Aquiles é a mesma coisa. Existem dois padrões
clínicos distintos, e confundi-los é um erro frequente, inclusive entre profissionais. Tendinopatia do corpo do tendão (midportion): é a mais comum em
corredores. A dor se localiza de 2 a 6 cm acima do calcanhar, exatamente na região central do tendão. Você pode sentir um
espessamento local, aquele nódulo que dói quando você aperta. Está fortemente relacionada à sobrecarga de treinamento e ao histórico de aumento brusco de volume ou intensidade — alguns pacientes relatam sensação de couro molhado e até mesmo crepitação. Tendinopatia insercional: a dor se concentra exatamente no ponto de inserção do tendão no calcâneo. É mais frequente em corredores mais velhos, com calcâneos proeminentes (deformidade de Haglund — também conhecida como esporão) ou que usam calçados com drop muito baixo. O protocolo de reabilitação aqui é diferente do anterior — e isso importa muito na escolha dos exercícios.
Quando procurar o médico imediatamente?
Se a dor vier acompanhada de um estalo ou “tiro” seguido deincapacidade de ficar na ponta do pé, procure atendimento de emergência. Pode ser uma ruptura do tendão e a situação é cirúrgica. Também são sinais de alerta: dor intensa de madrugada, inchaço progressivo sem melhora e febre associada à dor no tendão.
Por que você, corredor, tem mais risco?
A corrida é uma atividade de impacto repetitivo e o Aquiles está na linha de frente dessa equação. Mas não é só o número de quilômetros
que importa. Os fatores de risco mais bem documentados pela literatura são:
Aumento abrupto de carga: a “regra dos 10%” — nunca aumentar mais de 10% do volume semanal — é simplificada, mas tem fundamento real. Tendões se adaptam mais lentamente que músculos e sistema cardiorrespiratório. Quando você evolui rápido demais, o coração agradece e o tendão protesta.
Trabalho de velocidade sem base adequada: intervalados, tiros e treinos em subida solicitam o Aquiles de forma excêntrica muito intensa. Inserir esses estímulos sem base sólida de volume e força é receita certa para lesão.
Descuido com o drop dos tênis: trocar um tênis de 12 mm de drop por um de 4 mm (ou pior, correr descalço) sem adaptação progressiva aumenta drasticamente o estresse insercional. O tendão não perdoa mudanças bruscas.
Fraqueza de panturrilha e glúteo: panturrilha fraca não sustenta a carga e transfere parte dela para as estruturas passivas — incluindo o
tendão. Glúteo fraco altera a biomecânica do quadril e joelho, sobrecarregando a cadeia distal. Força é profilaxia.
Corrida em superfícies muito duras ou em aclive constante: asfalto, calçada e subidas excessivas amplificam a carga no tendão. Variar superfícies é estratégia, não frescura.
O protocolo que a ciência valida
A estrela do tratamento conservador da tendinopatia do Aquiles é, sem dúvida, o exercício de carga progressiva. O protocolo Heavy Slow Resistance (HSR), desenvolvido por Beyer e colaboradores e amplamente validado desde 2015, mostrou resultados equiparáveis ao protocolo excêntrico clássico de Alfredson (fale com seu fisioterapeuta do esporte para aprender a execução correta), com melhor adesão e menor dor durante o treino.
Protocolo HSR — Heavy Slow Protocolo HSR
- Elevação de calcâneo com dois pés (bilateral): suba em 3
segundos, desça em 3 segundos. 3 séries de 15 repetições.
Realize em superfície plana — não no degrau na fase
insercional. - Evolução para unilateral: mesma cadência (3-0-3). Adicione
carga progressivamente usando mochila, coletes ou leg press.
O objetivo é chegar ao máximo tolerado em 6–8 semanas. - Frequência: 3× por semana, com pelo menos 48 h entre
sessões. O tendão precisa de tempo para sintetizar colágeno
após o estímulo mecânico. - Dor aceitável: até 5/10 na escala de dor durante o exercício.
Dor que some em 24 h é sinal verde. Dor que piora
progressivamente: reduza a carga e reavalie. - Duração mínima: 12 semanas para resultado consistente.
Abandono precoce é a principal causa de recidiva. Tendão
exige paciência.
Posso continuar correndo?
Essa é a pergunta que todo corredor faz — e a resposta honesta é: depende. E não é uma resposta esquiva. O modelo de “repouso
absoluto” foi praticamente aposentado pela medicina esportiva moderna. Hoje seguimos o conceito de relative rest — redução de
volume e intensidade, mas manutenção de algum estímulo mecânico controlado.
Se a dor for leve (abaixo de 3/10), a corrida pode continuar com ajustes: redução de 30–50% do volume, exclusão de treinos de velocidade e
subida, preferência por superfícies macias. Se for moderada a intensa, ou se piorar progressivamente, o descanso temporário da corrida é necessário — mas substituído por outras formas de carga: ciclismo,
aquacorrida e os exercícios do protocolo.
Plano de retorno à corrida
O retorno gradual à corrida deve ser estruturado. Abaixo, o esquema
que utilizo com meus pacientes atletas — sempre adaptado individualmente, mas com essa lógica geral:

A corrida como aliada, não inimiga
Quero terminar com algo que repito no consultório toda semana: a tendinopatia do Aquiles não é o fim da sua corrida. É um aviso do seu
corpo, uma mensagem de que alguma coisa na equação entre carga e recuperação saiu dos trilhos. Com diagnóstico preciso, protocolo
correto e paciência (essa é a parte mais difícil para quem tem genética de corredor), a grande maioria dos pacientes volta a correr, a treinar
para provas e a bater seus PRs.
A ciência da medicina do esporte avançou muito. Hoje não te mandamos para casa com gelo e repouso. Te devolvemos à pista, com mais força, mais consciência do seu corpo e, espero, mais respeito por esse tendão extraordinário que carrega cada passo da sua jornada.
Corra com inteligência. Seu Aquiles agradece.
ANA PAULA SIMÕES
Professora Instrutora e Mestre em Ortopedia e Traumatologia e Médica Assistente do grupo de traumatologia do esporte pela Santa Casa de São Paulo .
Especialista em Ortopedia e Traumatologia RQE – N°28753.
Especialista em Medicina Esportiva RQE – N°67412
Ex presidente da Sociedade Paulista de Medicina do Esporte.
Diretora da sociedade brasileira de medicina do exercício e esporte

