Do desgosto pela corrida à ultra-maratona

Foto: Martin Weiner

A Rock the Ridge é um desafio de resistência realizado na Reserva Mohonk e no Parque Estadual Minnewaska, localizados em New Paltz, a 2 horas ao norte da cidade de Nova Iorque. A sexta edição anual da prova de 80km aconteceu no dia 19 de maio de 2018, com chuva constante e temperaturas abaixo dos 9ºc. Nesse ano, além da inscrição de US$ 150, cada participante precisou arrecadar US$ 250 em doações para programas de preservação da reserva natural. Os valores mudam a cada ano e dependendo de quando se inscreve. A jornalista brasileira Christiane Kokubo nunca se considerou uma corredora – “vivia dizendo que, pra mim, correr só se fosse pra jogar bola. Achava um desperdício de energia”. Até que algo mudou e em fevereiro deste ano, 3 meses antes da corrida, ela começou a treinar. O processo de treinamento merece – segundo ela – um depoimento à parte, tão transformador e revelador que foi. Mas no dia da prova, lá estava ela. Preparada para, sem nunca ter participado de corrida nenhuma, enfrentar 80km, que teria até 24 horas para concluir. Neste depoimento ela conta como foi a prova e esta nova experiência e como percorreu 80km em 14 horas. Boa leitura!!!

POR CHRIS KOKUBO – O dia 19 de maio de 2018 chegou e eu tinha um único medo: enlouquecer. Medo não dá muito para explicar, a gente só sente. A gente nem gosta de pensar muito ou falar em voz alta pra não atrair, pra não dar poder ao medo. Então, quando me perguntavam quais eram minhas metas nessa corrida, eu dizia: “não quero terminar com nenhum machucado permanente e quero fazer em menos de 24 horas”, que era o limite de tempo da prova. “Se der pra terminar antes de escurecer, melhor ainda”. Mas lá no fundo, meu único medo era enlouquecer. Era ir parar num lugar desconhecido da minha mente. Vai que o esforço físico exacerbado desencadeia num transtorno mental? Vai que a descarga de endorfina é tanta que minha mente colapsa? Decidi que não ia pegar nenhum dia de folga depois da prova. Melhor distrair a mente indo trabalhar, e não ficar em casa sozinha processando tanto hormônio. Serão 80 km de produção hormonal, melhor não arriscar. Confessei o medo pro Nate dois dias antes da corrida e pedi: “se eu for pra algum lugar desconhecido, por favor, venha me resgatar”.

Era pouco antes das 6h da manhã quando caminhamos pro portal de pedra com a torre, ponto inicial e final da corrida. Pelos números divulgados, éramos umas 400 pessoas. Ainda não chovia, mas a previsão era de precipitação seguida nas próximas muitas horas, temperatura abaixo dos 10oC. Quando começamos, devia estar próximo dos 6 ou 7 graus Celsius. Eu estava com uma calça fusô preta, shorts verde-limão por cima, uma camisa de manga comprida preta de gola alta bem agarrada ao corpo, outra de manga comprida azul mais solta, com aquele buraco no punho pra colocar o dedão, uma camiseta rosa fosforescente por cima de tudo e uma capa laranja bem fina pra proteger da chuva e do vento. Também estava com uma espécie de cachecol de lã, uma bandana cor de rosa na cabeça e meias grossas. Na mochilinha, quase dois litros de água que chegavam a mim por um prático canudinho, band-aid, um par de meia, lanterna de cabeça, barras de cereal, bloquinhos energéticos, uma mexerica, dois onigiri, um celular desligado, meus óculos, se porventura a lente de contato desse chabu, um boné e protetor solar, caso a previsão de tempo estivesse errada. Tudo embalado em saco plástico para não molhar, caso a previsão de tempo estivesse certa. Pendurei o meu número, 121, na mochila. Pra arrematar, resolvi tacar purpurina dourada na cara. “A energia do carnaval vem comigo”.

Antes da largada, fui encontrando as sete pessoas que eu conhecia. Abracei cada uma delas, desejando boa sorte. Umas sorriram, outras disseram que não era sorte o que precisavam. Tinha combinado com a Livia que a gente correria juntas os 10 primeiros quilômetros. Depois, cada uma ia seguir no seu ritmo – o dela muito mais rápido que o meu. A Livia é uma amiga de São Paulo que vive em Boston e que por algum motivo só dela achou que era uma boa ideia se juntar a mim quando eu postei no Facebook que ia correr 80 km.

Segundos antes da corrida começar, quase a postos, resolvi que ia domar a ansiedade. Inspira, expira. Inspira, expira. Inspira, expira. Ajudou. Virei e bem atrás de mim estava o Steve, o amigo que me convidou a correr. Dei mais um abraço, rápido e derradeiro, de agradecimento. A inquietação e o medo da loucura dissiparam, e eu me animei. “Vamos, Livia, que vai ser muito legal!”

E começamos, um passo na frente do outro, trotando. Cinco míseros minutos corrida adentro, ou talvez nem isso, e a chuva começou a cair. De leve, ainda amiga. A gente estava aquecendo, e eu tive a audácia de falar pra Livia: “se continuar essa chuvinha assim, acho que vai ser bom, porque refresca”. Ela concordou. Logo no início, passamos a Missy e a Julia, minhas amigas que toparam correr comigo e com quem treinei em Vermont, graças a deus, e as outras pessoas conhecidas, Steve, Cheyenne, Meg e John. Estávamos rápidas. Eu sabia que não ia conseguir manter aquele ritmo a corrida toda, mas estava decidida a seguir o passo da Livia até onde desse. Por volta do km 10, nos despedimos e ela disparou na minha frente. “Boa corrida, Livia! A gente se vê na chegada!” A chuva tinha dado uma apertada, não era mais chuvinha. O suor misturado à água que despencava do céu tinham molhado a roupa, mas eu sentia meus pés ainda secos. Tinha colocado uns pedaços de fita preta na parte de cima do tênis, tentando adiar o inevitável. As poças já eram muitas, mas não havia ainda muito barro. E era diminuir um pouco o ritmo pra começar a sentir frio.

Estávamos correndo num lugar lindo separado em duas reservas naturais montanhosas, a Mohonk Preserve e o Minnewaska State Park, a quatro horas a sudoeste de casa. Começamos a 301 pés (92 m) acima do nível do mar, e o ponto mais alto seria a 2185 pés (666 m), no km 48, ou seja, uma variação de 574 metros de subidas e descidas. Sem ninguém correndo comigo, e sem uso de tóxico algum, dei asas muito potentes à minha imaginação. Comecei a viajar na sonoridade dos nomes indígenas que batizam a região. Olhava para as árvores no caminho à minha frente e agradecia por estarem ali nos protegendo da chuva. Aí, imaginava uns seres mágicos me mandando energia das copas. Via uns bichos alados fazendo Radouken e a força deles chegando até o meu corpo. E via nativos norte-americanos que, imagino, habitaram aquele lugar, à beira do caminho acenando com a cabeça, com um cetro talhado com animais da região, um rabo de cavalo trançado bem longo, o topo da cabeça raspada, e o ar de aprovação de que eu estava no caminho certo. Às vezes era homem, às vezes, mulher. Ao seu lado, ora veados, ora raposas, ora ursos. E águias também, no ombro. Quiçá minha mente estava misturando as referências bem loucamente e imaginando uma cena impossível, nunca saberei.

Quatro dias antes da corrida, sonhei que uma ursa polar e três filhotes cruzavam o meu caminho no meio da prova. Fiquei intrigada e fui pra internet descobrir a simbologia, que obviamente era boa. A ursa tinha vindo me trazer coragem, e me lembrar que eu conseguia sobreviver em situações que pudessem parecer hostis pra outras pessoas. Toca aqui, ursa! Mas polar? Por que polar? O acupunturista, um dia antes da corrida, me trouxe a epifania: “talvez finalmente você esteja se conectando à sua vida no hemisfério norte”. Será? Toca aqui de novo, ursa!

Comecei a cantarolar. “Você que tem medo de chuva, você que não é nem de papel, muito menos feito de açúcar, ou algo parecido com mel”. Feliz da vida, abria os braços, olhava por uns segundos pra cima e pedia força praquela água que caía com força no meu rosto. Aí me dava conta que não precisava exagerar, e voltava a correr olhando pra frente, sem imaginar muito, só apreciando a paisagem. Fui assim alternando momentos mais livres, momentos mais focados, pensando em coisas que eu queria deixar pra trás a cada passo que dava, fica, fica, fica, fica, outras que queria carregar comigo por mais alguns quilômetros. Focava nas coisas boas.

Não tinha mais jeito de continuar desviando de tanta poça. Cheguei à primeira grande estação de suporte, no km 15,4, toda encharcada. Tomei dois copinhos de gatorade e resolvi parar rápido para usar o banheiro. Antes de sair, decidi tomar uns minutos extras pra colocar um band-aid nos dois indicadores do pé, que começavam a me incomodar. Quando tirei a meia esquerda, vi que uma pedrinha tinha arrancado uma parte da pele perto do dedão – sem eu nem sentir nada. Eita, começou o efeito anestésico. Coloquei o band-aid, calcei as meias e o tênis, lavei as mãos e saí do banheiro. Ainda animada, deixei a muvuquinha e recomecei a correr.

A chuva não dava trégua e agora eu começava a traçar uma estratégia pra próxima grande parada, dali uns 24 km, no km 40 do trajeto, onde uma sacola esperava por mim com uma troca de roupa seca, tênis, onigiris, outros lanchinhos e um bilhete do Nate. Pelo caminho, diminuía a velocidade quando ia mastigar algo – uma barra de cereal, um pedaço de graveto de carne (aqueles que antes eu tinha nojo e que passei a gostar), uns bloquinhos energéticos com consistência de ursinho gummy. Eu seguia no meu ritmo, e o cansaço começou a dar os primeiros sinais. Não estava mais adiantando pensar nos seres alados, nos índios, nos ursos. A chuva seguia escorrendo da bandana pela nuca, percorria o corpo todo. As pernas e os pés estavam molhados, a roupa grudada, e o frio, que chegou sorrateiro, começou a incomodar.

Foto: Martin Weiner

Em algumas partes, a gente cruzava com pessoas vindo na direção contrária. Não pode ser que essas pessoas estejam nesse ritmo forte o tempo inteiro e que ainda passam por mim e soltam um “Muito bem, você está ótima!” Será que estão correndo os 80 km, ou estão fazendo o revezamento? Deve ser o revezamento. Em meio a questionamentos assim profundos da vida, vi uma plaquinha que me animou: “estação de suporte 1 milha (ou 1,6 km)”. Essa milha pra chegar ao km 40, ou milha 25, a metade da corrida, foi, pra mim, a pior de todas. Não chegava nunca. Eu estava cansada de correr sozinha, não queria mais imaginar nada, não queria cantar, não queria olhar pro céu e nem agradecer energia alguma. Estava molhada e com frio. As micro-metas – vai, corre até a árvore, agora até aquela pedra, agora até aquela curva, agora até a plaquinha – já não estavam mais dando certo e eu estava decidida a começar a andar quando chegasse naquela poça grande. E assim que cheguei à poça e comecei a andar, um sino começou a tocar. Não, não estava delirando. Era um voluntário que me viu diminuindo o ritmo e começou a balançar o sino loucamente e a gritar: “Não desista, você está chegando!”. Olhei pra ele e sorri e resolvi obedecê-lo e não parar de correr e assim que cheguei onde ele estava, numa curva, vi que a estação magnânima da metade da corrida estava ali, bem ali.

Quando me aproximei, vi três pessoas que eu conhecia e a alegria tomou conta de mim. Ao me ver, a Livia soltou, com uma voz aliviada: “Chris! Que bom que você chegou!” Entre pegar um pedaço de bacon do meu amigo, ir fazer xixi, achar a minha mochila e voltar pra onde a Livia estava, eu comecei a tremer de frio. As mãos, inchadas e geladas, estavam inutilizáveis. A Livia demorou um tempão pra conseguir abrir a mochila dela. Depois de trocar de roupa, ela foi buscar pra mim um caldinho de frango quentinho e delicioso que estavam servindo. Uma cadeira desocupou e quando eu sentei pra trocar de meia e tênis, a parte de trás da minha coxa esquerda pareceu querer ter câimbra. Mas eu nem sabia que essa parte do corpo tinha câimbra, minha gente. Não, câimbra, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem. Troquei de tênis rápido e levantei, não queria dar chance da câimbra se materializar. Resolvi que não ia trocar de roupa, mesmo com frio. Estava com preguiça de ter que lidar com todas aquelas camadas grudadas ao meu corpo. Só coloquei uma blusa de moleton por cima da camiseta, embaixo da capa laranja. Tirei a bandana e entuchei na sacola, coloquei gorro e luvas de lã. A Livia lembrou que a gente tinha uns pacotinhos de produzir calor que a Missy tinha dado na noite anterior. Como eu tinha luvas, dei os meus pra Livia, que correu carregando um em cada mão até o calor acabar. Quando estávamos quase saindo da estação, Missy chegou, toda animada. Não deu pra esperá-la, porque eu tremia muito e precisava voltar a me movimentar. Despedimos e resolvi que dali pra frente eu ia com a Livia, no ritmo dela, fosse rápido ou devagar.

“Em dia de prova, não faça nada que você não tenha feito no treinamento, não use nenhuma peça de roupa nova, não use tênis novo, meia nova, nada novo”, é o que o pessoal experiente diz. Contrariei a recomendação e do km 40 em diante, estreei a companhia de alguém que falava minha língua, entendia minhas piadas, sabia da minha cidade e das minhas referências e, mais importante de tudo nesse dia, conhecia as músicas que minha cabeça me permitia lembrar e sugeria canções que mais ninguém ali conhecia. E fomos os 37 km seguintes conversando, cantando, dando risada e também apreciando o silêncio, lidando com a chuva e o frio, com as muitas subidas e descidas do percurso. No topo da montanha – a prova, afinal, se chama “Rock The Ridge 50“, algo como “Vença o cume” -, nada de vista, só muita névoa. A gente andava e, quando o frio apertava, corria um pouco. Nosso ritmo estava bem mais devagar – fomos passadas por todo mundo que eu conhecia. Mas eu disse pra ela muitas vezes: “Quem tá com pressa aqui, Livia? A gente tem 24 horas pra terminar, vamos numa boa”.

Claro que a gente ainda não sabia que com apenas três horas de prova, ou seja, às 9h da manhã, algumas pessoas começaram a ter hipotermia e os organizadores decidiram adiantar o tempo de corte em cada uma das quatro etapas. Então, quem achava que tinha até as 16h pra chegar ao km 40, foi surpreendido ao chegar lá às 13h30 e ser impedido de continuar por conta do frio e da chuva intensos. A gente, por sorte, cruzou cada etapa bem antes do tempo limite e nem ficou sabendo o que estava acontecendo até terminar. Mas mais ou menos 100 pessoas não terminaram a corrida por conta disso.

Lá por volta do km 77, bem perto do final, demos de cara com um fotógrafo voluntário, um senhor muito simpático que ficou todo animado quando contamos que estávamos fazendo os 80 km individualmente, não no revezamento. “É a primeira vez de vocês?” “A primeira e a última”, eu respondi na lata. Ele deu um sorrisinho de lado. “Não diga isso ainda. Espere uns dias pra ver o que você sente. Eu pensei a mesma coisa na minha primeira vez e já fiz essa corrida seis vezes”. Eu ri alto.

Foi aí, prestes a percorrer os dois ou três últimos quilômetros, que parou de chover. Parecia piada. “Livia, vou precisar apertar o passo e movimentar mais meu corpo, porque estou ficando com muito frio.” Ela estava com dor nos pés e disse pra eu ir. “Não esquece de fazer o aviãozinho do Vanderlei!”, foi como me despedi, e comecei a trotar de novo. Preferia quando, por conta das curvas, não dava pra ver o caminho que estava por vir. Ali, as árvores deram espaço para um campo aberto e se via uma estradinha bem comprida à frente. Ai, não, tem que correr tudo aquilo ainda? Tudo aquilo? E a torre de pedra, onde está, onde está, onde está?

O céu ainda estava claro, mesmo que nublado, mas a noite já começava a cair. Numa árvore bem alta, à direita da estradinha, uma coruja começou a cantar. Numa outra, à esquerda da estradinha, outra começou a responder. E em meio a esse repente corujesco, voltei a agradecer. A todos os seres imaginários e reais que tinham me incentivado a chegar ali, me mandado mensagem e força, rindo de mim e comigo. Pensei em todo mundo que tinha treinado comigo, corrido uma única vez que fosse, ou me ajudado a me preparar física, emocional ou mentalmente nos últimos quatro meses, todo mundo que tinha doado pra campanha da corrida, que tinha dado dicas, até quem tinha tentado me convencer a não correr, porque estava preocupado que eu fosse desmoronar. Agradeci ao meu corpo, a cada dedo do pé, a cada músculo da perna, a cada osso do corpo, a cada neurônio da cabeça.

Foto: John Mizel

Depois que as corujas ficaram pra trás, voltei a só escutar o silêncio do lugar. E de repente, eu vi. Olhei por cima da copa das árvores à minha frente, e lá estava a ponta da torre de pedra. Que alegria! Que alegria! Que alegria! Uma alegria muito grande, muito grande, muito grande, muito grande mesmo. Uma apoteose de alegria. Mais uns passos, vi a tenda branca à direita. E aí as pessoas me viram e começaram a tocar o sino e a gritar e a bater palma. Que energia é essa, minha gente? O que é isso que estou sentindo? É muita alegria! É puro prazer. E a uns 10 metros da linha de chegada, abri os braços e fiz o aviãozinho do Vanderlei Cordeiro de Lima, das Olimpíadas de 2004, e ninguém entendeu a referência, mas continuaram gritando e me saudando. E depois de me movimentar por 14 horas 7 minutos 43 segundos e 1 milésimo embaixo de chuva fria e névoa, eu terminei os 80 km na 130a posição.

Colocaram uma medalha que dizia “Finisher” em mim, ou seja, finalizei, concluí, terminei, acabei, arrematei, findei, encerrei, completei, sepultei aquele 80 km! Eram “parabéns” vindos de várias pessoas desconhecidas de direções diferentes, e eu morrendo de vontade de abraçar o Nate, mas cadê ele? Será que foi ao banheiro, será que está tomando uma sopa, cadê? Quero um abraço! Preciso abraçar alguém agora, é muita energia pra suprimir, preciso, preciso. Aí vi um senhor aleatório de boné sorrindo pra mim e batendo palma pra mim e falando “parabéns” pra mim e não deu outra, fui até ele e dei um abraço suado, molhado, cansado e não muito apertado, porque não se abraça com tanta vontade naquelas condições fedidas quem você não conhece, né? E aos poucos a torcida parou, até que começou de novo, e eu olhei e a Livia estava chegando, correndo! E aí eu comecei a bater palma e a gritar e dei uma choradinha, porque fiquei muito emocionada ao vê-la chegando correndo, aguentando a dor física, e só de lembrar daquela imagem eu fico com vontade de chorar. E mesmo que ela não tenha feito o aviãozinho do Vanderlei como combinamos que faríamos, juntas ou separadas, eu estava lá de braços abertos pra gente abraçar o mais apertado que fosse. Vem cá, minha conterrânea amarela latino americana! Você chegou!

Pegamos nossas mochilas, mais um merecido caldinho de frango bem quentinho, e caminhamos, arrastadamente, de medalha no peito, pro ônibus que nos levaria até o carro. Puxa, mas o ônibus podia parar mais perto da barraca da sopa, né? Livia, terminamos. Livia, terminamos!

Bom, balanço final: pernas inchadas por algumas horas, roupa impregnada com um cheiro esquisito por alguns dias, dores musculares por algumas semanas. Uma bolha, um machucadinho daquela primeira pedrinha que já sarou, alguns quilos a menos, uns músculos fortalecidos a mais, segundo par de tênis ainda coberto de lama. A certeza de que o treinamento nos morros de Vermont foi forte (benditos 48 km debaixo de granizo!), de que a companhia em todo o processo foi essencial, de que o corpo reage e se condiciona muito mais rápido do que eu imaginava. De que tão importante quanto condicionar o corpo, ou talvez ainda mais, é preparar a mente e o espírito. Muitos preconceitos revisitados e tomara que eliminados da minha vida. Eu me inscrevi pra essa corrida por um motivo e ao longo do processo fui descobrindo que o caminho realmente se faz ao caminhar e que é o caminho que traz as motivações.

Talvez, pra mim, que não gosta de fazer nada correndo (há), ter participado de uma ultra maratona, termo que eu não conhecia até alguns poucos meses atrás, faça muito mais sentido do que de uma maratona. Porque não é uma competição, é um desafio de resistência. Tenho certeza que vou continuar digerindo isso tudo por muito tempo, e que muitos bônus inesperados vão ainda surgir. Mas o mais importante de tudo: não fui aos confins desconhecidos da minha mente, não tive overdose negativa de endorfina, não enlouqueci. Ainda estou aqui.

Christiane Kokubo é japonesa nascida na Mooca. Trocou a loucura de São Paulo pela insanidade tranquila da roça norte-americana e hoje vive em Vermont, estado do senador Bernie Sanders. Sonha em pegar o metrô na estação Vila Sônia antes de atingir a 3a idade.

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