Tem que ser atleta!!!

POR JOSÉ VIRGÍNIO DE MORAIS – Quando conheci a palavra atleta pela primeira vez, logo associei a pessoas diferenciadas, por serem seres que eu só via pela televisão e imaginava que eram do tamanho da tela. Isso até o dia que acompanhei meu irmão jogar bola no campo e ouvi o técnico se referindo aos jogadores como atletas e foi neste momento que iniciei uma comparação de que eu também poderia ser um. Não pelo talento, mas sim por serem pessoas normais e não iguais às da televisão (pequenas do tamanho da tela).

Com o passar dos dias e a evolução dos mundos, passei a entender melhor o significado da palavra atleta.

Queria ser jogador de futebol e sempre ouvia falar que eram necessários alguns pré-requisitos para ser um: treinar todos os dias, comer bem, dormir bem, ser bom na escola para ser bom de bola e passei a fazer o necessário para ser o tal atleta.

Com o passar dos anos, categorias que se elevaram, idades que passaram, sonhos que ficaram, ser jogador de futebol estava ficando para trás e seguir os caminhos de ser atleta também não fazia mais sentido. Ou seja, o lance de comer corretamente, dormir para uma melhor recuperação, ser bom na escola para ser bom de bola etc., não tinha mais a ver.

Foi quando o futebol, quase como um passe de mágica, deu a vez para o atletismo/corrida. Como era só correr, achava que o protocolo de ser atleta não se aplicava a esse esporte, mas quando percebi que para ser diferente era preciso comer bem, dormir melhor, ser inteligente nas tomadas de decisões, seja na escola ou em uma corrida, era hora de continuar tentando ser atleta.

Muito tempo se passou e até hoje continuo buscando ser atleta.

Mas, passei a usar este protocolo em minha vida como um todo, seja de atleta, técnico ou pai e só fui capaz de perceber esta conexão com as próprias ações que a vida me proporcionou.

Como em um daqueles filmes americanos, em que o pai nunca está presente nos eventos da filha, nesse final de ano, no dia de autógrafo no livro e despedida da escola da filha número III (na minha época eram livros para o alto e rabiscos na camiseta), marcada para as 18h, tive um contratempo com os filhos I e II, era rodízio do carro, ameaçava desabar o mundo em água e nada de eu conseguir chegar na escola. Paro o carro em frente à escola e, como se não se bastasse o atraso, erro o portão de entrada.

Mesmo sendo atleta de corrida, tive que fazer uma volta no quarteirão da escola para achar um portão aberto, ao achar comparei aquele momento com o de uma chegada de prova e, no limite da frequência cardíaca e uma fadiga generalizada dos músculos das pernas, entrei. A missão agora era saber onde estava ocorrendo o evento.

Foi naquele último momento, em que ser diferente faz a diferença, quando ter o poder de decisão para continuar tentando ou ficar se lamentando, que cheguei às 18h30, tempo suficiente para ouvir: “Sofia Virginio, olhe para cá para tirar a foto”.

Com a mesma energia de minhas chegadas nas provas de trilhas que faço, gritei: “filhaaaaaaaaa, papai chegou, me espere para a foto”.

Sabe, algumas coisas em minha vida ocorrerem justamente para que eu possa me doar mais, acreditar mais, justificar menos, reclamar menos e sonhar sempre, mesmo que seja com base em alguns filmes americanos.

Ser atleta é acreditar sempre, mesmo que seu globo ocular lhe mostre o contrário.

“O que for da profundeza de sua alma assim será o seu desejo.
O que for seu desejo assim será sua vontade.
O que for da sua vontade assim serão suas ações.
O que forem suas ações assim será seu destino”.
(trecho de uma prece hindu, extraída da Brihadaranyaka Upanishad, uma das mais antigas obras filosóficas da Humanidade).

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