POR FLORA PFEIFER – Aprendi um tanto com a corrida sobre planejamento, metas e objetivos de longo prazo. O esporte nos ensina, para ele mesmo e para outros domínios da vida, a traçar um sonho, transformá-lo em plano e acompanhar suas métricas de execução. Por um tempo, embebedei-me nas doses da disciplina, determinação, constância e resiliência. Mas a rotina previsível e estável é apenas uma forma de se experienciar essa atividade. A corrida pode também ser ferramenta para o oposto – uma forma de se perder. Teria, no entanto, benefício uma relação um pouco mais… caótica, confusa e imprevisível com a corrida?
A literatura dos caminhantes e viajantes por muito retratou o papel de se perder na criação e expressão, e o deslocamento bipedal (em geral, caminhando, mas faremos uma extrapolação poética para abranger também a corrida) como precursor do pensamento. Henry David Thoreau escreveu sobre o assunto em seu livro Walden: “É uma experiência surpreendente, memorável e valiosa, perder-se na floresta a qualquer momento. Muitas vezes, em meio a uma nevasca, mesmo durante o dia, a pessoa se depara com uma estrada conhecida e, ainda assim, descobre ser impossível determinar o caminho que leva à aldeia. Embora saiba que já a percorreu mil vezes, não reconhece nenhum detalhe nela, e lhe parece tão estranha quanto se fosse uma estrada na Sibéria. À noite, é claro, a perplexidade é infinitamente maior. Em nossos passeios mais triviais, estamos constantemente, embora inconscientemente, nos guiando como pilotos por certos faróis e promontórios conhecidos, e se nos desviamos de nossa rota habitual, ainda carregamos em mente a direção de algum cabo vizinho; e somente quando estamos completamente perdidos, ou desorientados – pois um homem perdido – é que apreciamos a vastidão e a estranheza da Natureza. Todo homem precisa reaprender os pontos cardeais sempre que acorda, seja do sono ou de alguma abstração. Somente quando estamos perdidos, em outras palavras, só depois de perdermos o mundo é que começamos a nos encontrar e a perceber onde estamos e a infinita extensão de nossas relações” (tradução nossa). As palavras de Thoreau sugerem uma visão bastante positiva sobre se perder – então, por que não tentar?
Foi por isso que, nas últimas semanas, voltei-me para as montanhas da Serra da Mantiqueira, no sul de Minas Gerais. Vou para lá desde pequena, cidade da minha avó, e sempre seguia as mesmas estradas quando saía para correr ou caminhar. Desta vez, no entanto, queria praticar o ato de me perder. Todas as manhãs, embarcava em uma micro aventura, seguindo uma estrada de terra ou trilha diferente pela zona rural. Às vezes, checava um possível trajeto no Google Maps; outras, simplesmente deixava-me guiar pela curiosidade, virando nas esquinas conforme o caminho que me chamasse. Encantei-me com a descoberta de rotas de tirar o fôlego por toda uma área que nunca tinha explorado!
Um dia, decidi ir até uma cachoeira, a 9 kms do centro da cidade. Percorri pastos, fazendas e montanhas pelas estradas de terra que adentravam a zona rural. Um fazendeiro aqui e ali; vacas, cachorros e pássaros mais frequentes do que pessoas. Depois de muitas subidas e descidas sob o sol escaldante, finalmente cheguei à Cachoeira da Meia Légua: incrível, refrescante e só para mim.

Para voltar, seriam mais 9 kms pela frente. Achando que não tinha como errar nessa primeira parte, já que parecia ser uma única estrada principal, simplesmente segui correndo, sem olhar o mapa. Tive a impressão de que o caminho estava um pouco diferente, mas talvez fosse o ângulo da visão, vindo do outro lado, pensei. Bem, lá pelas tantas, percebo que estava indo na direção errada, três quilômetros adiante – e, portanto, minha corrida de 18 kms seria ainda mais longa. Estava, literalmente, perdida.
É nesse ponto que percebo a diferença entre estado e sentimento. Estar perdida, isto é, momentaneamente não se saber onde está ou que caminho tomar, pode vir acompanhado da descoberta e da curiosidade, e não do medo e da falta de controle que uma sensação de se estar perdida também traz. Neste caso, apesar de desviar do trajeto, confiava na minha capacidade de voltar para casa em segurança – tinha um mapa para olhar novas rotas, água e géis para energia, e pernas e pulmão que aguentariam um esforço um pouquinho maior. 21,5 km depois, estava de volta à casa da vovó, com uma história para contar.
É nos perdendo que sentimos, aprendemos, vivemos — no sentido mais cru da palavra. Ao nos perdermos, expandimos o território ao nosso redor, do desconhecido ao conhecido, e ao mesmo tempo ampliamos nosso território interno. É assim que crescemos. A segurança vem da percepção de que, mesmo sem sabermos o caminho, temos a capacidade de descobri-lo. Concentrar-nos em aprimorar nossas habilidades, em vez de elaborarmos um grande plano, pode ser uma abordagem interessante para essas situações. Há um valor imenso em aprender a navegar pelas fronteiras, pelos limites — e pelas questões ainda sem resposta.
Dos caminhos concretos às trajetórias de vida no sentido mais amplo, aprender a navegar na incerteza tem seus lados positivos. Rebecca Solnit, em seu livro “Um Guia Para se Perder”, discute como artistas e cientistas, por definição, precisam perseguir o indefinido. Seu papel é justamente transformar o desconhecido em conhecido. Abrir as portas da percepção e do conhecimento é o que impulsiona a inovação. “Como se conta com o imprevisto?”, ela elabora, “Parece ser uma arte de reconhecer o papel do inesperado, de não perder o pé diante de surpresas, de colaborar com o acaso, reconhecer que existem alguns mistérios essenciais no mundo e, portanto, que o cálculo, o planejamento e o controle têm limite. Contar com o imprevisto talvez seja exatamente a operação paradoxal que a vida exige de nós” (p. 11). O poeta John Keats, por sua vez, introduziu o conceito de Capacidade Negativa: a habilidade de existir na incerteza, no mistério e na dúvida, sem a busca externa por fatos e razões.

De fato, um estudo de neurociência de 2020 descobriu que “a variabilidade diária na localização física estava associada ao aumento do afeto positivo em humanos” (Heller et al., 2020). Ou seja, mudar de lugar traz benefícios positivos para nossas emoções e bem-estar. Os pesquisadores rastrearam os participantes com um dispositivo de geolocalização durante quatro meses, analisando sua entropia de deslocamento (o quão amplamente e inesperadamente eles se deslocavam) e pediram que respondessem a questionários de humor enviados por telefone durante esse período. Eles também realizaram exames de ressonância magnética funcional (fMRI) com metade dos participantes para observar os mecanismos neurais associados a isso. A exposição a lugares novos ativou o hipocampo e liberou dopamina – em resumo, aqueles que mais se deslocaram para locais novos e inesperados se sentiram mais felizes.
Como adicionar um grau de imprevisibilidade às suas corridas? Aqui algumas sugestões:
- Experimente uma nova rota perto de casa
- Saia pra rodar sem relógio, prestando atenção nas suas sensações
- Parar no meio do treino (isso mesmo!) para algo que te chama a atenção – uma vista, um passarinho, um local diferente
- Nos treinos de final de semana, teste rotas novas mais distantes, na natureza,
- Pegue um novo caminho para ir ao trabalho
- Puxe conversa com um outro corredor desconhecido durante o treino
- Saia para correr sem olhar o mapa, perca-se, de propósito, e tente se encontrar
O grande poeta e escritor Rainer Maria Rilke também abordou esse tema. As palavras de Rilke, de 1903, me levaram a uma mentalidade radicalmente diferente em relação à incerteza e à sensação de estar perdido na vida, para além do conceito geográfico – não para evitá-la, mas sim para apreciá-la e, de fato, buscá-la. Deixo-os com este trecho para concluir a reflexão do dia:
“Quero implorar-lhe, o máximo que puder, caro senhor, que tenha paciência com tudo o que está por resolver em seu coração e que tente amar as próprias perguntas como se fossem quartos trancados e livros escritos em uma língua muito estrangeira. Não busque agora as respostas, que não podem ser dadas a você porque você não seria capaz de vivê-las. E o importante é viver tudo. Viva as perguntas agora. Talvez então, gradualmente, sem perceber, você viva, em algum dia distante, a resposta.”

